domingo, 19 de abril de 2015

Anders Zorn - Biografia e Obras / Luciano Cortopassi

Anders Zorn - Biografia 1860-1920

     Pintor, escultor e desenhista sueco. É reconhecido internacionalmente como o pintor mais famoso de nacionalidade sueca. Deve sua celebridade especialmente a seus retratos, tanto da alta sociedade parisiense da segunda metade do século XIX, como da família real sueca e de vários presidentes dos Estados Unidos da América. Também são destaques seus célebres "nus" realizados na Suécia e sua obra gráfica, onde demonstrou uma grande capacidade, em especial as gravuras executadas com uma técnica solta que demonstra seu grande domínio no desenho.
     Era filho natural de Grudd Anna Andersdotter e Leonhard Zorn; não chegou a conhecer seu pai, que faleceu em Helsinki em 1872. Criado por seus avós em Mora, iniciou seus estudos em 1872, na escola de Enköping. Aos quinze anos, em 1875, matriculou-se na Real Academia de Arte de Estocolmo, estudos que finalizou brilhantemente em 1880. Nesse mesmo ano apresentou-se na Exposição de Estudantes sua obra Manhã, que lhe abriu as portas dos círculos artísticos suecos. Imediatamente se multiplicaram os encargos; especialmente se especializou em retratos, sobretudo de crianças.
      Nesse mesmo ano conheceu Emma Zorn, filha de uma conhecida família com influência nos círculos artísticos e culturais suecos, com quem casou-se durante o outono de 1885. Entre ambas datas, Zorn viajou pelo Reino Unido e Espanha, e nesta última se interessou particularmente pela pintura de Velázquez e empenhou-se a experimentar os efeitos de luminosidade sobre agua, uma constante em sua obra futura. Durante o inverno de 1887, Anders e Emma realizaram uma viajem de transcendental importância para a obra do pintor.
      Durante este ano e o seguinte permaneceram em St. Ives (França), e Anders apresentou no Salão de 1888 Um pescador de St. Ives, obra adquirida pelo estado francês, e ainda passaram 8 anosn na capital francesa, mas não perderam o contato com a Suécia, onde passavam todos os verões. Na Feira Universal de 1889, Zorn consolidou sua figura no panorama artístico internacional; neste mesmo ano é nomeado cavaleiro da Legião de Honra francesa e é convidado a apresentar seu auto-retrato na Galeria dos Uffizi em Florença
        É precisamente este gênero, de retratos, o que marcou definitivamente até 1896 sua época parisiense. Sua experiência com retratos lhe serviu para ser aceito pelas principais personalidades da vida cultural de Paris da primeira metade do século XIX; destacam-se seus retratos de Antonin Proust (1888) e o de Coquelin Cadet (1889). Neles, Zorn demonstra sua capacidade de representar a psicologia de seus personagens, e é onde o estudo da obra de seu admirado Velázquez deixou sua marca. Por causa da Exposição Internacional de Columbia (1893), Zorn, que foi eleito superintendente da delegação suiça na exposição, realizou a primeira de várias viagens aos Estados Unidos.
        Estas viagens também lhe permitiram mostrar suas qualidades como pintor de retratos, a contar entre seus modelos com personalidades: Grover Cleveland e sua esposa (1899), William Taft (1911) e Theodore Rooselvet, realizado em 1905. Zorn viajou aos Estados Unidos da América em cinco ocasiões, a primeira já citada de 1896 e o resto durante os anos de 1898, 1900, 1903 e 1907. Por isso sua obra está bem representada nas coleções públicas americanas,como nos museus de San Luis e o de Chicago.
Em 1896 Anders e sua esposa Emma regressaram à sua cidade natal de Mora, em cuja vida pública se implicaram profundamente. Emma dedicou-se à promoção da leitura e seu marido mostrou sua preocupação pela conservação do folclore musical sueco, em consonância com as consignas do naturalismo, ponto de referência de sua prática plástica. Isto trás seu definitivo estabelecimento na Suécia, e a obra de Zorn abordou os temas de caráter popular, as cenas costumeiras que refletem o caráter do povo sueco. Também pôs seus dotes de retratista ao serviço da família real sueca, da qual retratou vários membros.
Se a obra ao óleo, de Zorn, caracterizou-se pela prática de um naturalismo próximo ao Impressionismo, foi sem chegar a adquirir a liberdade formal que a caracterizou. Sua obra como pintor se resolve en traços soltos, onde o artista nos demonstra suas qualidades de desenhista. Nos deixou um total de 289 gravuras, nos quais a influencia de Rembrandt adquire o mesmo relevo que a de Velázquez em sua prática de óleo. Entre os retratos de personagens de sua época podemos destacar os de Ernest Renan (1892), o do escultor francês Auguste Rodin (1906) e o de seu compatriota, o dramaturgo August Strindberg (1910).
         Realizou assim mesmo um grande número de aquarelas, especialmente durante seus primeiros anos de matrimônio, estimulado por Emma, que teve um papel importantíssimo ao longo de sua vida. Entre outras, podemos destacar Férias de Verão (1885) ou sua aquarela mais famosa, Pão Nosso De Cada Dia (1886). A parte de sua obra que mais se estima em seu país são a nudez, série que iniciou durante sua estadia na França, com obras como Outdoors (1888) e As banhistas (1888).
Outra arte que destacou o multidisciplinar artista sueco foi a escultura, da qual nos deixou obras de caráter naturalista em pequeno formato, como Banho matutino (1909), e de caráter público, como a Estátua de Gustav Vasa (1903). Após seu falecimento, Emma fundou o Museu Anders Zorn, em 1939; fundação que contém uma representativa amostra dos trabalhos de Zorn em todas as suas facetas.





                                                




quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Victor Gabriel Gilbert / Biografia e Obras

O meado do século XIX e o princípio do século XX viram a introdução da arte na vida diária: dos vendedores de rua aos desabrigados. 
Os artistas franceses, principalmente,  se envolveram com os problemas sociais do seu tempo e procuraram livrar-se do historicismo imponente que conteve a produção da arte por décadas. O movimento conhecido como Realismo encontrou guarida na crítica e artistas tais como Gilbert promoveram uma exposição realística da vida moderna em suas múltiplas variações. 
Victor Gabriel Gilbert nasceu em 1847 em Paris. Como seus pais não tinham suporte financeiro para mandá-lo à École des Beaux-Arts, Gilbert começou a trabalhar como aprendiz com Eugène Adam. À noite estudava na École de la Ville de Paris,  para seu treinamento artístico oficial. 
Gilbert expôs pela primeira vez no Salon, em 1873 com Les Apprêts du Dinere Avant le Bal,  um ano antes do grupo dos Impressionistas apresentarem sua primeira pintura do gênero:  Impressionist.  Durante parte da década de 1870 Gilbert teve o suporte financeiro de Père Martin, um marchand com loja de arte na rua Lafitte,  um encorajador do movimento Impressionista e da promoção de artistas novos e promissores. Martin comprou vários trabalhos de Gilbert que, em agradecimento, pintou o retrato de Mme. Martin, exibido no Salon em 1875. 
Gilbert, então, já estava bem conceituado no meio artístico e transformou-se no pintor de Les Halles, uma área de Paris que existe ainda hoje, mas que, naquela época, era apenas um centro de vendedores e mercadores de rua.  Com a tela Le Matin -um recanto do mercado de peixes em Les Hallesdurante a manhã- exibida no Salon em 1880, ganhou sua primeira medalha. 
Como artista plenamente estabelecido como pintor realista dos aspectos da vida parisiense, teve o seu quadro Porteurs de Viande  exibido no Salon de 1884. Embora seu estilo tenha se ampliado, Gilbert não negligenciou cenas unicamente burguesas, tais como Marché aux Fleurs, o que o ligava mais intimamente aos pintores Impresionistas, especialmente a Pierre-Auguste Renoir. 
Em  1897 foi agraciado com o título de Chevalier de la Légion d onneur e continuou expondo regularmente no Salon até 1933. Em 1926 recebeu o Prix Bonnat. 
Gilbert morreu em 1935. Foi influenciado não somente pelo realismo, mas também pelo Impressionismo. Sua vida e carreira no Salon testemunharam um período de transições estilísticas consistentes, influenciadas pela época.








sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Balthus Biografia e Obras / Luciano cortopassi


Balthus é o nome como é mais conhecido o Conde Balthazar Klossowski de Rola. Estava pertíssimo de completar 93 anos quando morreu na Suíça, em sua casa no povoado de Rossinière. Balthus nasceu em Paris, filho de família abastada e aristocrática, no ano de 1908.
Era a história viva do que habitualmente chamamos de “belle époque” francesa. Foi uma vida inteiramente submersa no mundo da arte, até mesmo pela convivência com outras pessoas. Pablo Picasso foi um dos seus amigos mais chegados. Conviveu também com Henry Matisse e Juan Miró. Na verdade, viveu cercado de artistas e intelectuais desde a infância.
Apesar de nascido em Paris, era de origem polonesa, filho de um historiador e uma aquarelista.  O pendor pela arte vem do berço.  
Recebeu educação esmerada mas foi um autodidata como artista.  Aprendeu indo aos museus e igrejas e fazendo cópias, antes de assumir um estilo próprio.  Casou com uma japonesa de nome Setsuko Ideta, que o acompanhou até a morte e com isso foi misturando em sua biografia mais nomes que para nós, brasileiros, parecem complicados.  No início da adolescência, teve um gato chamado Mitsou, que desapareceu misteriosamente.  Sobre esse tema fez 40 desenhos que foram publicados. Eram desenhos inocentes, de uma quase criança, mas já apresentavam a tristeza e a solidão que caracteriza toda a obra do artista.
Depois migrou para a pintura de ninfetas, sempre buscando uma sensualidade bem explícita, um erotismo declarado mas sempre mesclado com um ambiente de solidão e tristeza.  As meninas, no frescor da juventude e da sensualidade recém desperta, contrastam visivelmente com ambientes lúgubres, de mobílias antigas, cortinas pesadas e cores fechadas. A presença de gatos é também uma constante, significando talvez um lado inocente que o Conde Balthazar Klossowski de Rola sempre fez contracenar com o pensamento erótico, até para dar-lhe mais ênfase.
Para fortalecer mais ainda o erotismo, o artista freqüentemente colocava um único ponto de luz na cena, fazendo incidir essa luz exatamente nas partes mais sensuais da criança/menina/mulher, como coxas e seios.  A intenção é simplesmente declarada e mostra um certo espírito pedófilo que incomoda.
O artista tinha também uma certa fixação por espelhos e sobre toda a fantasia do que eles representam, como passagem para um outro mundo.  Os espelhos serviam para mostrar uma mirada sobre si mesmo que ultrapassava as dimensões conhecidas e levavam a um ambiente inexistente alem do campo da imaginação.  
O Conde Balthazar Klossowski de Rola, ou simplesmente Balthus, não foi um artista da perfeição. Suas pinturas pecam nas proporções e contornos, escorregam na escolha de cores apropriadas e enganam-se nas perspectivas com relativa freqüência mas conseguem, apesar disso, um efeito emocional poderoso.  O despertar da sexualidade é retratado com uma mistura de inocência e provocação consciente.  Os gestos das meninas são propositais, a incidência da luz na abertura das pernas é uma atitude estudada e proposital. O resultado é forte.  
Balthus não foi um pintor muito fértil. Ao longo da vida de quase 93 anos – morreu 10 dias antes de completá-los – deixou 300 quadros concluídos. Se considerarmos uma vida útil dos 15 aos 90 anos, teremos uma média de 4 quadros por ano, o que não é muito.
 
Por Ronaldo Carneiro Leão
e Rê Rodrigues 









sexta-feira, 22 de agosto de 2014

João Baptista da Costa Biografia e Obras / Luciano Cortopassi




João Baptista da Costa (Itaguaí RJ 1865 - Rio de Janeiro RJ 1926). Pintor, desenhista, professor. Inicia sua formação artística em 1877 no Asilo dos Meninos Desvalidos, Rio de Janeiro, onde estuda desenho com Antônio de Souza Lobo (1840 - 1909). Em 1885, ingressa na Academia Imperial de Belas Artes - Aiba, e é aluno de Zeferino da Costa (1840 - 1915), José Maria de Medeiros (1849 - 1925) e Rodolfo Amoedo (1857 - 1941). Em 1894, recebe o prêmio de viagem ao exterior na 1ª Exposição Geral de Belas Artes. Vai para a Europa e, em 1897, estuda com Jules Joseph Lefebvre (1836 - 1912) e Tony Robert-Fleury (1837 - 1911) na Académie Julian, em Paris. Em 1906, torna-se professor da Escola Nacional de Belas Artes - Enba, substituindo Rodolfo Amoedo na cadeira de pintura; tem como alunos Candido Portinari (1903 - 1962), Orlando Teruz (1902 - 1984) e Quirino Campofiorito (1902 - 1993), entre outros. De 1915 até 1926 assume a direção da Enba.

Baptista da Costa é reconhecido como um dos grandes pintores de paisagem brasileiros da passagem do século XIX para o XX. Nasce muito pobre, fica órfão aos 8 anos de idade e passa um tempo morando com parentes. Não consegue se adaptar e foge para o Rio de Janeiro em 1873. Vive no Asilo de Menores Desamparados, onde aprende música, encadernação e desenho. O professor Antônio de Souza Lobo observa sua aptidão e o estimula a prosseguir os estudos em artes, conseguindo seu ingresso na Academia Imperial de Belas Artes - Aiba, em 1885, com o apoio de Ambrósio Leitão da Cunha (1825 - 1898) - o barão de Mamoré. Na Aiba, Baptista da Costa aprende pintura com Zeferino da Costa e depois com Rodolfo Amoedo, de quem assiste às aulas até se formar em 1889. Nesse período, como aluno, ele vive o processo de transição da Academia, saindo de uma orientação majoritariamente neoclássica para outra mais realista. Esse processo acompanha, de certo modo, a mudança do Segundo Reinado para a República, da Aiba para a Escola Nacional de Belas Artes - Enba. As pinturas passam a tratar de temas menos grandiloqüentes, com situações mais amenas e composição harmônica e descritiva.

Em 1890, o pintor mostra seus trabalhos pela primeira vez na Exposição Geral de Belas Artes. Cerca de quatro anos depois, pinta a tela Em Repouso (ca.1894). Na pintura desta cena rural, a predominância do ambiente sobre a figura denuncia o maior interesse de Baptista da Costa pela paisagem. Com ela o artista ganha o prêmio de viagem ao exterior na 1ª Exposição Geral de Belas Artes, em 1894, e muda-se para a França em 1896. Lá assiste às aulas de pintura de Tony-Robert Fleury (1837 - 1912) e Jules Joseph Lefebvre (1836 - 1912), na Académie Julian. Na estada européia, o artista conhece a Alemanha e a Itália. Volta ao Brasil em 1898, bastante amargurado, após perder sua primeira esposa.

Na sua volta, o artista passa a expor anualmente nos Salões nacionais, recebe medalha de ouro de segunda classe em 1900, de primeira classe em 1904 e a grande medalha de ouro em 1908. Em 1906, é convidado pela Aiba a substituir Rodolfo Amoedo na coordenação do ateliê de pintura. Nesse momento, seu trabalho elimina progressivamente os personagens e passa a se ocupar da descrição da paisagem rural. A produção de Baptista da Costa é vasta e compõe-se de importantes quadros de cenas de gênero e retratos como o de João Gomes do Rego e Dom Pedro II, mas é na pintura de paisagem que ele se consagra.

A dedicação, cada vez maior, à paisagem, é simultânea à sua aproximação de procedimentos de observação direta da cena brasileira. Baptista da Costa retrata a paisagem rural sem os arroubos românticos de Antônio Parreiras (1860 - 1937). Evita as idealizações dos pintores acadêmicos anteriores, procurando, em telas como Quaresmas, uma relação contemplativa com a natureza brasileira. Apesar de existir semelhanças de procedimento e de poética com artistas franceses como os membros da Escola de Barbizon e Jean-Baptiste-Camille Corot (1796 - 1875), pode-se dizer que Baptista da Costa é mais contido. Ele compõe panoramas de natureza variada, mas evita relações desiguais e fortes contrastes. As paisagens são harmônicas e serenas, tudo aparece acolhedor e pacificado.

Em 1915 o artista é homenageado com duas honrarias. Uma artística: a medalha de honra da 22ª Exposição Geral de Belas Artes. A outra é a sua eleição como diretor da Enba, cargo que exerce até o fim da vida sem deixar de dirigir o ateliê de pintura. Nessa função, Baptista da Costa forma muitos discípulos na pintura de paisagem, como Levino Fanzeres (1884 - 1956), Francisco Manna (1879 - 1943) e Vicente Leite (1900 - 1941). Apesar de não aceitar o modernismo, que julgava cabotino e anárquico, Baptista da Costa foi importante na formação de pintores próximos das linguagens de vanguarda, como Candido Portinari e Manoel Santiago (1897 - 1987).













domingo, 17 de agosto de 2014

Oscar Pereira da Silva Biografia e Obras / Luciano Cortopassi

Biografia:
Oscar Pereira da Silva (São Fidélis RJ 1867 - São Paulo SP 1939). Pintor, decorador, desenhista, professor. Entre 1882 e 1887, estuda na Academia Imperial de Belas Artes - Aiba, e é aluno de Zeferino da Costa, Victor Meirelles, Chaves Pinheiro e José Maria de Medeiros. Em 1887, torna-se ajudante de Zeferino da Costa na decoração da Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro. Conquista o último prêmio de viagem ao exterior concedido pelo imperador dom Pedro II, transferindo-se para Paris em 1889. Estuda com os pintores Léon Bonnat e Jean-Léon Gérôme. No período em que permanece na França, produz diversos estudos e telas. Retorna ao Brasil em 1896. No Rio de Janeiro, realiza uma exposição individual no salão da Escola Nacional de Belas Artes - Enba, onde são apresentados 33 trabalhos feitos na Europa. No mesmo ano, transfere-se para São Paulo. Leciona no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo - Laosp e no Ginásio do Estado, e ministra também aulas particulares em seu ateliê. Em 1897, funda o Núcleo Artístico, que, mais tarde, se transforma na Escola de Belas Artes, onde dá aulas. Entre 1903 e 1911, trabalha na decoração do Theatro Municipal de São Paulo, elaborando três murais: O Teatro na Grécia Antiga, A Dança e A Música. Entre 1907 e 1917, realiza pinturas para Igreja de Santa Cecília. Como pensionista do Governo do Estado de São Paulo, viaja a Paris em 1925.

Autor de pintura histórica, retratos, temas religiosos, cenas de gênero, naturezas-mortas e paisagens, Oscar Pereira da Silva é também grande copista. Na cidade de São Paulo estão seus principais trabalhos, entre os quais se destacam Escrava Romana, ca.1882, Infância de Giotto, 1895, e Fundação da Cidade de São Paulo, 1909, pertencentes à Pinacoteca do Estado de São Paulo - Pesp; Desembarque de Cabral em Porto Seguro, 1922, e O Príncipe Regente D. Pedro, Jorge Avilez ao lado da Fragata União, do Museu Paulista da Universidade de São Paulo - MP/USP. A experiência na Igreja da Candelária, no Rio de Janeiro, como auxiliar de Zeferino da Costa, gera frutos em São Paulo, onde realiza a decoração da Igreja de Santa Cecília. Na cúpula, estão retratados os evangelistas; nas capelas, a Imaculada Conceição e os Esponsais de São José. Completando o conjunto, figuram em friso ao redor da nave diversos retratos de clérigos. No início do século XX, em São Paulo, diversas capelas coloniais são substituídas por edifícios neogóticos ou neocoloniais, abrindo-se uma frente de trabalho para artistas decoradores, como Oscar Pereira da Silva e Benedito Calixto. Além da Igreja de Santa Cecília, ambos atuam nas igrejas de Santa Ifigênia, da Consolação e do Rosário. Pereira da Silva realiza também trabalhos decorativos para a Igreja de Nossa Senhora da Conceição.

Em Paris, realiza seu aprimoramento artístico nos ateliês de pintores conservadores, não se interessando pelo realismo e muito menos pelo impressionismo. Em grande parte pela formação acadêmica que recebe, não se deixa influenciar pela pintura moderna, preferindo continuar numa linha tradicional, que trabalha com grande qualidade técnica.

Cultiva o assunto bíblico e histórico, temas que já não interessam à maioria dos pintores de sua época. São exemplos dessa tendência Salomé, 1913, Lídia, Escrava Romana, telas de figuras femininas que revelam o apego às tradições acadêmicas e que parecem anacrônicas para seu tempo. Suas obras revelam desenho minucioso e perfeito, à semelhança do mestre Zeferino da Costa. Alguns trabalhos, principalmente as cenas de gênero, de que são exemplos Criação da Vovó, 1890, Consertador de Porcelanas, 1894, Cozinha na Roça e Canto Íntimo parecem menos severamente pautados pela estética tradicional, revelando alguma ousadia mais na temática do que no tratamento pictórico.
Suas laboriosas composições são características da expansão da pintura que predomina no meio artístico brasileiro no início da República, o que explica tanto sua alta produtividade e aceitação no período quanto as críticas de que foi alvo posteriormente. Pereira da Silva insere-se com sucesso num contexto em que o ensino artístico e as encomendas oficiais são as principais fontes de atividades para os artistas. Exerce, então, a atividade de professor e é bastante solicitado a realizar obras para instituições ligadas ao governo.
Realiza também algumas paisagens, mas a principal tarefa por ele assumida consiste em recriar, em grandes composições, episódios da história nacional ou paulista. O melhor exemplo é certamente o Desembarque de Cabral em Porto Seguro. A tela ganha tal notoriedade, servindo de iconografia para livros escolares e outras publicações, que até hoje figura como a mais popular representação da chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil. É interessante considerar que a obra é realizada para as comemorações do centenário da Independência do Brasil, em 1922, no mesmo ano que a Semana de Arte Moderna agita o ambiente cultural paulista. Outra importante tela histórica é Sessão das Cortes de Lisboa em 9 de maio de 1822, episódio em que diversos deputados brasileiros, liderados por Antonio Carlos de Andrade e Silva, defenderam na corte portuguesa que um único soberano deveria governar os reinos de Portugal e do Brasil. Assim como O Desembarque, a tela é encomendada pelo historiador e diretor do Museu Paulista, Afonso d'Escragnolle Taunay, para ocupar os espaços do recém-criado museu. A eleição de determinados momentos históricos faz parte do projeto de construção e elaboração da identidade e memória nacionais.

Pode-se criticar Oscar Pereira da Silva pela repetição das fórmulas e a impermeabilidade às novas tendências pictóricas em voga internacionalmente. No fim da vida, passa a produzir uma quantidade maior de marinhas, paisagens, naturezas-mortas e aquarelas. Autor de uma produção numerosa, porém desigual, quase sempre pautada na estética tradicional, considerado por alguns críticos como um pintor fraco e demasiadamente elogiado, pauta sua obra, como afirma o crítico Quirino Campofiorito, "na convicção de que era inadmissível a um artista deformar, para, deste modo, melhor expressar".











sábado, 9 de agosto de 2014

Albert Eckhout Biografia e Obras / Luciano Cortopassi



Pintor e desenhista, Albert Eckhout veio com Frans Post para Pernambuco, a chamada Nova Holanda na época, na comitiva do governador-general Johan Maurits, conde de Nassau-Siegen, conhecido em nossa história como Maurício de Nassau. O plano era retratar o Brasil holandês para os investidores europeus saberem a importância das terras ocupadas.

Sobrinho do pintor Gheert Roeleffs, Eckhout trabalhava em Amsterdã (Holanda) como ilustrador, aos 26 anos, quando foi convidado para a missão artística de Nassau. De 1637 a 1644, documentou frutas, flores, animais e pessoas do Nordeste brasileiro com desenhos e telas. Ficou fascinado pelo que encontrou no Brasil. A maioria das telas tinha mais de dois metros de altura. Foram pintadas para o Palácio de Friburgo, a residência de Nassau no Recife e foram levadas pelo governador quando os holandeses foram expulsos.

Mesmo após voltar à Europa, continuou a elaborar imagens sobre material recolhido, ainda patrocinado por Nassau. O príncipe presenteava com obras de Eckhout a nobreza européia. Seu primo Frederico 3º, rei da Dinamarca, recebeu oito representações de índios brasileiros em tamanho natural e uma série de 12 naturezas-mortas com frutas tropicais. Essa coleção pertence ao Museu Nacional da Dinamarca e só foi exposta no Brasil no final do século 20.

Para o rei da França Luís 14 foi enviada uma coleção de oito pinturas, levadas para a manufatura de tapeçarias dos Gobelins onde foram reproduzidas na série chamada "Tapeçarias das Índias". Elas tornaram-se muito conhecidas e foram tão copiadas que os cartões originais que serviam de matriz para produzir novas tapeçarias se estragaram. O Museu de Arte de São Paulo (Masp) possui cinco da primeira série, a Petites Indes (Pequenas Índias).

Em 1876, D. Pedro 2°, imperador do Brasil, encomendou cópias de seus quadros, feitas pelo pintor Niels Aagaard Lutzen, que estão hoje no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no Rio de Janeiro. A "Dança dos Tapuias" é considerada a obra-prima de Eckhout. O número de telas produzidas por ele na Nova Holanda pode ser bem maior do que se sabe.

Algumas de suas obras talvez tenham sido destruídas em incêndios. É provável que o próprio Eckhout conservasse alguma coisa para si, pois seus quadros apareceram em coleções particulares muito depois de sua morte. Embora alguns se perdessem durante a Segunda Guerra Mundial, ainda existem 80 telas de pássaros brasileiros, produzidas nos dez anos em que o artista esteve em Dresden, na Alemanha.

Depois do Brasil, Eckhout mudou-se para Amersfoort (1648), cidade onde batizou seus três filhos. Morou em Sachsen, Dresden (1653-1663), contratado por João Jorge II como pintor de sua corte. Mas, vitimado pela malária adquirida em sua estadia na América, voltou para sua cidade natal onde morreu no ano seguinte.

Pouco se sabe sobre a vida pessoal de Eckhout. Ele não recebeu o mesmo reconhecimento que o colega Frans Post no mundo das artes e ficou esquecido durante séculos. Ainda hoje historiadores com pouco conhecimento  do mundo das artes contestam o valor artístico de sua obra, exaltando apenas o documental.











domingo, 3 de agosto de 2014

Frans Post Biografia e Obras / Luciano Cortopassi


Frans Janszoon Post (Haarlem, Holanda 1612 - idem 1680). Pintor, desenhista e gravador. Inicia-se na pintura em Haarlem, na Holanda, onde possivelmente estuda com o irmão, o arquiteto Pieter Jansz Post (1608 - 1669). Freqüenta os ateliês de Pieter Molijn (1595 - 1661), de Salomon van Ruysdael (ca.1602 - 1670) e de Salomon de Bray (1597 - 1664). Indicado pelo irmão ao conde Maurício de Nassau, governador-geral do Brasil Holandês, integra a comitiva que vem ao país em 1637. Entre seus companheiros destacam-se os artistas Albert Eckhout (ca.1610 - ca.1666) e Georg Marcgraf (1610 - 1644). Paisagista, Frans Post fica encarregado de documentar a topografia, a arquitetura militar e civil, cenas de batalhas navais e terrestres. As telas a óleo pintadas no Brasil não fazem concessão ao exotismo, sua paisagem é serena e subordinada à realidade. Em 1644, volta à Holanda e continua a pintar temas brasileiros, realizando uma centena de quadros a óleo baseados em seus esboços e desenhos, aos quais passa a acrescentar elementos exóticos da fauna e flora tropical. Em 1646, ingressa na Corporação dos Pintores de São Lucas (Lukasgilde), obrigação de todo o pintor que não estivesse a serviço da corte, da qual dez anos mais tarde torna-se diretor e, posteriormente, tesoureiro. Com uma seleção dos inúmeros desenhos realizados sobre o Brasil, ilustra o livro Rerum per Octennium in Brasília, de Gaspar Barléu (1584 - 1648), que conta os feitos de Mauricio de Nassau durante os oito anos de governo no Brasil, publicado em 1647.

Comentário Crítico:

Pouco se conhece da obra do paisagista holandês Frans Post antes de sua chegada a Pernambuco, em 1637, como membro da comitiva de artistas e cientistas trazida pelo conde Maurício de Nassau para documentar o Novo Mundo durante seu governo no Brasil. Filho do pintor de vitrais Jan Janszoon Post (15-- - 1614) e irmão do arquiteto e pintor Pieter Jansz Post (1608 - 1669), Post volta-se cedo para um dos gêneros de pintura mais importantes da Holanda na época, a pintura de paisagem. Não se sabe ao certo como se deu sua formação. Talvez tenha freqüentado ateliês de paisagistas de prestígio como Salomon van Ruysdael (ca.1602 - 1670) ou Pieter Molijn. De qualquer forma, a relação com a pintura holandesa da primeira metade do século XVII é evidenciada em toda sua produção artística.

Ao aportar na costa brasileira como pintor oficial responsável por retratar em desenhos e telas a paisagem, os feitos militares, a arquitetura do Brasil holandês, Post era somente uma jovem promessa de talento. Indicado por seu irmão a Nassau, é no contato com a realidade brasileira que desenvolve uma obra original. Mesmo após sua volta à Europa não deixa de pintar vistas tropicais, especializando-se em temas brasileiros. Acredita-se que ele tenha pintado 18 quadros em sua permanência de quase oito anos no país, mas apenas sete deles podem ser vistos hoje. Em telas como Vista da Ilha de Itamaracá, 1637, Vista dos Arredores de Porto Calvo, 1639 ou Forte Hendrik, 1640, percebe-se nitidamente algumas características que marcam a produção de Post: linhas baixas do horizonte com céus altos em planos abertos para uma vasta área em contraposição à vegetação ou motivos em primeiro plano em desenhos simplificados, mas meticulosos. Nota-se nessas telas um certo colorido homogêneo de tons rebaixados mais próximo à pintura holandesa do que à cor da paisagem local. Tais composições em perspectiva baixa eram comuns a um tipo de pintura panorâmica desenvolvida na época pelos holandeses. A elas, Post acrescenta a paisagem do Novo Mundo. Dessa junção surgem pinturas informativas e serenas, contidas diante da exuberância tropical. Nesse sentido, Post é "o primeiro artista em terra americana a ter dado uma visão fiel e ao mesmo tempo poética da região, evitando fantasias e inverossimilhanças", como observa o historiador José Roberto Teixeira Leite.

De volta à Europa, seus desenhos servem como base para as pranchas publicadas no volume Rerum per Octennium in Brasilia de Gaspar Barléu (1584 - 1648). Desliga-se do conde Maurício de Nassau, mas continua pintando paisagens tropicais, para as quais encontra mercado. Essa produção realizada distante do motivo, com base em estudos realizados na América, toma caminhos diversos. Até cerca de 1659 o artista segue em suas construções de paisagens topográficas de precisão documental. Contudo, é comum encontrar nas cenas feitas na Europa certa "quebra" da serenidade da paisagem mediante a colocação de animais ou cenas selvagens como lagartos, serpentes, tatus, cobras devorando coelhos, por exemplo, no primeiro plano do quadro. Nesse momento também a luz difusa de seus trabalhos brasileiros é substituída pelo contraste de cores mais fortes.

De 1660 a 1669, fase de maturidade de Post, nota-se um crescente domínio da técnica e dos temas brasileiros, no entanto isso se dá em detrimento da espontaneidade. Não há mais a preocupação documental. O artista passa a compor com base no rearranjo de elementos vegetais, animais, topográficos e arquitetônicos, demonstrando um perfeito manuseio de seu vocabulário pictórico. Trata-se de paisagens ideais, muitas vezes ricas de detalhes pitorescos. Nesse período encontra-se em plena potência de sua qualidade de miniaturista. A fatura torna-se mais empastada e o fundo é estruturado em tons verdes e azuis (na tradição da pintura flamenga). Certa luminosidade diáfana toma conta dos últimos trabalhos. Entretanto, nesta fase de auge comercial não arrisca em novas composições, voltando sempre aos mesmos temas (exemplo: vistas de Olinda, engenhos, paisagens com casas e personagens esparsos). Nos últimos anos de existência, Frans Post vive de forma obscura, entregue à bebida e sem capacidade de criação. Talvez a dimensão de seu êxito artístico como o mais importante pintor da paisagem brasileira no século XVII possa ser avaliada pela homenagem do amigo Frans Hals (ca.1581 - 1666), que em meados de 1655 realiza seu retrato.